quinta-feira, 23 de julho de 2009

Actividades Institucionais Significativas





Actividades de animação social, actividades ocupacionais, actividades de reabilitação e de estimulação cognitiva são uma fonte importante de bem-estar, uma vez que poderão actuar sobre algumas das áreas de vida do indivíduo, quer através das aprendizagens que são realizadas (promoção da vertente educativa que promove as potencialidades de cada um, encoraja e motiva para a acção), do reforço à interacção e comunicação entre utentes e equipa multidisciplinar, quer através da motivação para a auto-promoção, melhoria da auto-estima, da auto-imagem que se obtém através do apoio e acompanhamento prestado.


Apoio nas tarefas domésticas


Permite ao utente integrar-se e sentir-se útil. Certas actividades permitem estimulação e manutenção das capacidades motoras e sensoriais. As actividades desenvolvidas e estimuladas estão dependentes do grau de deterioração cognitiva do utente, podendo haver a necessidade da intervenção contínua do cuidador durante a tarefa a desenvolver. As tarefas devem ser simples e de fácil desempenho, sem comprometer a integridade física.


Cuidados Pessoais


Tarefas relacionadas com a Higiene pessoal, roupa e ida ao banheiro são fundamentais para manter a independência possível e a dignidade da pessoa. Deve-se sempre estimular a autonomia do utente (nunca substituir o utente nas actividades, estimulando o seu desempenho e apenas apoiar na totalidade em tarefas que não consegue realizar devido a limitações físicas, motoras ou cognitivas).



Actividades relacionadas com a cozinha


São normalmente tarefas recreativas, divertidas e informais, ideais serem realizadas em grupo. Permite realizar a manipulação de objectos, estimular os sentidos, sequenciar e potenciar a criatividade e a participação.

Exemplo de actividade: preparação de bolos.

Deve-se seleccionar uma receita que vá de encontra às preferências dos utentes e se possível de encontra às restrições dietéticas, preparam-se os ingredientes, medem-se os mesmos e prepara-se a massa. Pode-se estimular as reminiscências durante a actividade (questionar sobre pratos ou bolos preferidos, como se cozinham, técnicas para a confecção, etc). Deve-se sempre retirar de perto dos utentes objectos que os distraiam e que possam significar algum perigo na sua manipulação.


Actividades no Exterior


Implicam um mínimo de actividade física. Deve-se ter em conta as capacidades físicas (de resistência) e motoras. As actividades promovidas devem ser agradáveis e estimulantes. Podem também promover o desenvolvimento pessoal do utente, através de visitas a locais de importância cultural e à realização de aprendizagens durante as actividades.


Compras


Durante as saídas recreativas. É necessário um alto grau de independência por parte dos utentes. No caso de apresentarem défices significativos devem ser acompanhados a todo o tempo.



Actividade Física e Desporto


Permite manter uma boa condição física, reabilitação ou simplesmente atrasar quadros evolutivos que levem à imobilidade e aos seus efeitos nocivos.


· Passeios Terapêuticos;

· Jogos com bolas e balões;

· Jogo de Boccia;

· Bowling; etc.


Trabalhos manuais e Arte


Têm interesse individual e em grupo, sendo que devem ser desenvolvidas estas duas vertentes. Este tipo de actividade promove a auto-estima devido aos resultados que se alcançam, facilitando também a interacção social e de grupo.

As actividades deverão ser seleccionadas de acordo com as capacidades, interesses e experiências de cada um. Normalmente em utentes com défice cognitivo moderado, actividades que foram por eles realizadas ao longo da vida serão ideais para serem estimuladas (uma vez que a capacidade de realizar novas aprendizagens pode estar diminuída).

O material necessário às actividades deve ser previamente preparado, se possível com o apoio de utentes mais independentes.


Música, baile e espectáculos


Permitem estimular os sentidos, realizar exercício físico e facilitar o contacto social. As actividades devem ser sempre adequadas aos interesses e limitações dos utentes.

No universo dos utentes actuais, uma das vertentes preferidas relaciona-se com a música, especialmente a popular portuguesa.

Podem-se estimular reminiscências (recordações) através de canções antigas e letras conhecidas; dançar músicas com diferentes ritmos; estimular o canto; reconhecer instrumentos musicais, etc…


Jogos de Mesa


Permitem estabelecer contacto social, estimular acções mentais e motoras, sendo motivo de satisfação e de ocupação. As regras dos jogos devem ser adaptadas às limitações de cada um (exemplo: pela simplificação de regras, diminuição do grau de dificuldade) e deve-se ter também em conta as preferências dos utentes.

Jogos de Mesa: dominó, jogo do galo, damas, xadrez, cartas, bingo, jogos de cores e formas geométricas diversas, etc.

Cadernos de passatempos: crucigramas, sopa de letras, encontrar as diferenças, etc.


Jardinagem e Horticultura


São actividades significativas, relativamente fáceis e ao mesmo tempo de entretenimento. Os resultados apresentados (crescimento de flores, frutos…) são visíveis e motivo de orgulho, satisfação e auto-estima para os utentes que possuem interesse na actividade.

Conselhos: material sempre perto dos utentes e não plantar plantas perigosas ou cortantes.

Pode-se sempre estimular o diálogo questionando sobre cuidados especiais para a plantação (e também relacionados com outros produtos como a batata, o milho, etc).

Deve-se trabalhar as cores, odores, formas e nomes das plantas e objectos que se utilizam.


Necessidades espirituais e de contacto social


O objectivo principal de uma Instituição de Solidariedade Social deve ser sempre trabalhar para o bem-estar do utente (apoiar e avisar sobre actividades religiosas ou outras que se desenvolverão na Instituição, promovendo atitudes motivadoras). Apoiar nos preparativos de festas tradicionais, ajudando na decoração da Instituição, promovendo cor e vida também são tarefas que poderão ser desempenhadas pelas Auxiliares de Acção Directa, em coordenação com a Animadora Sociocultural e restantes Técnicos.



Pontos importantes a considerar:



§ As actividades devem ser sempre adequadas à população com quem se irá trabalhar;


§ Utentes com maior défice cognitivo necessitam de maior apoio e acompanhamento ao nível da realização de actividades que devem ser: mais simples consoante o défice, actividades adaptadas e escolhidas normalmente para trabalhar uma área específica (exemplo: memória, funções executivas que influenciam grandemente o desempenho das actividades de vida diária e que não é mais do que saber sequenciar tarefas para a concretização de uma actividade).



Trabalhar actividades de estimulação cognitiva:



a) Linguagem;


· Abordar junto do utente temas/acontecimentos significativos (de âmbito pessoal, familiar, cultural), podendo utilizar-se objectos relacionados para estimular a conversação. Temas: netos, festas populares, refeições preferidas, opiniões próprias sobre diversos temas, etc.


· Apresentação de imagens:


§ nomear objectos, assinalar imagens pedidas, construir frases ou narrações (deve-se intervir estimulando a conversação sobre o tema). No caso de sentir dificuldade em dar o nome aos objectos (anomia) poderá dizer as características do objecto referindo para que é utilizado;


§ agrupar em categorias: roupas, transporte, frutas, etc (quanto maior o défice menor deve ser o número de imagens apresentadas).


· Realizar concursos onde os utentes poderão fazer grupos para identificarem nomes começados por determinada letra que se incluam nas categorias:



  1. frutas, verduras, árvores e flores, animais domésticos, selvagens, aves, comida e bebida, ferramentas, móveis, roupas, electrodomésticos, meios de transporte, desportos, cores…
  2. listas de provérbios, adivinhas, anedotas, música popular portuguesa, etc.

· Trabalhar com as palavras:

  1. descrever um objecto e pedir o seu nome (ex: estão no céu e aparecem de noite - estrelas);
  2. pedir os antónimos ou sinónimos de algumas palavras;
  3. pedir que nomeiem elementos com características determinadas (ex: alimentos vermelhos – morangos, pimento, tomate; emoções positivas – alegria, contentamento, felicidade);
  4. relacionar uma palavra com a profissão ou tipo de pessoa (ovelha–pastor; cancã-cantor);
  5. repetição de frases ou palavras (quanto maior o défice menor devem ser as frases pedidas);

Nota: Em utentes com maior défice cognitivo o mais importante não é a utilização de uma linguagem correcta ou da informação transmitida, mas sim do estímulo à comunicação.


Em utentes com dificuldade na discriminação visual e reconhecimento deve-se ajudar através de pistas e da simplificação da tarefa (sempre que se prevê que o utente vá sentir dificuldade na sua realização). O objectivo é motivar e não provocar sentimentos de inutilidade ou desconfiança. Devem-se parar os exercícios sempre que se verifiquem erros continuados.



b) Orientação: conversar sobre aspectos relacionados com o tempo, as estações e os acontecimentos anuais tradicionais; promover a recordação das festividades anuais, utilizando um calendário e uma agenda; promover actividades em grupo para dialogar sobre as alterações da zona (o antes e o agora), alterações ao nível do quotidiano, (apresentando fotos da terra e incentivando o diálogo), conversar sobre itinerários, distâncias, nomes dos locais e características principais; promover o raciocínio temporal (se estamos em Maio, qual é o próximo mês?), devendo-se actualizar diariamente o calendário que será afixado na sala de convívio, conjuntamente com o apoio dos utentes; promover a orientação no espaço (Sabe onde está?, Em que cidade vivemos?); promover o diálogo sobre a planificação do dia, da semana, do mês ou mesmo do ano, realizada pelo utente; localizar determinadas zonas com importância num mapa (exemplo: Fátima, Serra da Estrela, etc, dependendo do grau de instrução); ajudar a preencher o diário do utente (reforça a capacidade de orientação pessoal e biográfica).



c) Atenção-concentração/ actividades sensoriais;

  • Reconhecimento de:
  1. imagens sobrepostas e dizer o seu nome;
  2. emparelhamento de figuras/ caras.
  • Descrever as características dos objectos (descrever objectos enquanto realiza tarefas do dia-a-dia, exemplo: esponja de banho);
  • Trabalhar relações espaciais: esquerda, direita, acima e abaixo;
  • Emparelhar cores e figuras;
  • Promover sessões de pintura: colorir imagens ou formas geométricas, criar objectos relacionados com as estações do ano, com festas tradicionais, criar máscaras de carnaval com diversos materiais (tintas, palhinhas, esponjas, algodão, arroz, massas, cola, etc);
  • Discriminação de letras (ex: traçar um círculo em redor de cada P e M que visualize);
  • Reminiscências auditivas: identificação de sons apresentados; realização de sons do quotidiano; músicas e letras que aprecie, repetição de palavras ditas por outrem;
  • Reminiscências tácteis: vendar o utente e questionar o que um objecto faz lembrar, que tipo de sensação promove; conhecimento das características dos objectos; identificar texturas e materiais; identificar, nomear e encaixar formas geométricas; associações tácteis (ex: é tão suave como o algodão);
  • Reminiscências olfactivas: identificação de sabores comparando com imagens apresentadas.

d) Esquema corporal (coordenação motora, etc): dizer partes do corpo e pedir que apresentem as funções/actividades que se podem fazer (ex: com os olhos); imitação de movimentos de cara e mãos (sessões de mímica); assinalar no seu corpo as diferentes imagens apresentadas com partes do corpo; fotocopiar corpo humano e pedir ao utente que recorte e cole as várias peças no sítio correcto.

e) Memória: ajudar o utente a criar numa folha a linha do tempo (linha da vida onde escreve ou desenha acontecimentos significativos, segundo a ordem em que foram acontecendo); conversas sobre diversos temas para estimular as reminiscências (exemplo: festividades: tradições próprias; épocas em que se celebram, etc).

f) Praxis (manipulação de objectos e transformação em outra coisa): ordenar que realize mímica como se estivesse a manipular determinado objecto ou realizar gestos de comunicação (ex: sorrir, chorar, dizer adeus, etc), reconhecer os gestos apresentados, manipular cordões de sapatos, treinar o fecho e a abertura de botões, recortar, colorir figuras, desenhar (espontaneamente, dirigido – ex: dia da árvore, ou copiado – adaptado às capacidades do utente); modelar figuras (ex: com plasticina).

g) Leitura e escrita: leitura em voz alta, completar frases, associar palavras a imagens, ordenação alfabética de palavras escritas, construção de palavras com sílabas e letras isoladas, escrever palavras pertencentes a categorias (animais, flores, etc) ou apresentar imagens e pedir para dizer categoria, cópia de figuras simples (sem levantar o lápis).

h) Problemas aritméticos, de cálculo e gestão de dinheiro;


· Assinalar formas geométricas pedidas, colocar os objectos com as formas e cores na ordem pedida (ex: toque no quadrado amarelo com a mão direita e no círculo verde com a esquerda);

· Resolver problemas simples (x; +; - ; /);

· Operações com contador de madeira;

· Leitura, reconhecimento de números e ordenação.

· Imitação de situações de gestão de dinheiro (folha com recortes de produtos e preços). Previsão do dinheiro gasto. Contar e reconhecer o dinheiro.

i) Funções executivas: ordenar palavras por relação lógica (ex: mar, oceano, lago, rio); relações comparativas (o céu é azul tal como o fogo é…); compreensão dos efeitos das acções (se não paga a luz e o gás…); solucionar problemas; completar provérbios e expressões (estimulação da memória e promoção do raciocínio);


· actividade em grupo: fazer um cartaz com um tema à escolha, em que os utentes têm de buscar frases ou imagens em jornais ou revistas e colar, relacionando as colagens com o tema proposto.


Em praticamente todas as actividades se podem apresentar cartões com imagens de forma a diminuir a dificuldade da actividade, simplificando e adequando às limitações de cada um. Outras técnicas se podem utilizar sendo que normalmente são realizadas pelos cuidadores que acompanham o utente na tarefa, devendo para isso possuir conhecimento dos seus interesses, da sua fonte de motivação e grau de dificuldade sentido, directamente relacionado com a funcionalidade física e mental.

Intervenção Espiritual como tentativa de salvaguardar valores e direitos essenciais à dignidade/ Cuidados Continuados


“Uma das tentações dos profissionais de saúde, sobretudo neste tempo de prevalência da ciência e da técnica, está em tratar o doente, dar-lhe todo o apoio, utilizando os inúmeros meios de diagnóstico e todos os recursos da medicina para a sua recuperação integral. Esquece-se, por vezes, a visão global da pessoa no seu complexo bio-psico-social-cultural e espiritual.” Comissão Nacional de Pastoral da Saúde


Não basta a qualidade científica e técnica dos profissionais e das unidades de saúde. Além da qualidade científica e técnica exige-se a qualidade humana: humanização dos cuidados, das relações, das estruturas, dos equipamentos e até dos espaços.


Só uma acção em equipa é garantia da integralidade da assistência. Todos são co-responsáveis, todos se entre-ajudam, cada um com a sua competência, mas todos empenhados na assistência global do doente. Nenhum médico ou enfermeiro pode assegurar uma assistência integral. Mesmo para além das funções técnicas, há elementos que são indispensáveis como são a actividade do assistente social, do psicólogo, do voluntário e até de alguém que possa dar assistência espiritual. No entanto, esta abordagem tende ainda a ser vista com alguma desconfiança por alguns profissionais de saúde, o que restringe o potencial da intervenção passível de ser alcançado.


Sabemos que parte da cura e possibilidade de bem-estar quando esta não é mais possível depende do estado anímico do paciente e este depende da solução conseguida para os problemas físicos, sociais, da resposta afectiva dos seus familiares ou do apoio espiritual (trabalhar o espírito: conjunto das funções psíquicas e dos estados de consciência do ser humano que lhe determina o comportamento, embora não tenha realidade física ou material).


A doença e o sofrimento trazem, normalmente, acrescidas angústias aos doentes e às pessoas significativas do mesmo. Saber escutar, dar tempo, estar disponível, são elementos indispensáveis para se cumprir os objectivos enumerados anteriormente. Atender estes pacientes no âmbito dos Cuidados Continuados de Longa Duração, requer a compreensão das suas reacções frente à sua situação, bem como da família, e o compromisso de assisti-los, dentro do possível, em todas as suas necessidades, contribuindo para o alívio de seu sofrimento, mostrando atitudes de respeito, atenção e reconhecer que se pode sempre fazer algo para melhorar a qualidade de vida dos utentes.


O objectivo será então ajudar os doentes e família a terem melhor qualidade de vida: “qualidade de vida é o resultado da soma do meio físico; social; cultural; espiritual e económico onde o indivíduo está inserido; dos estilos de vida que este adopta; das suas acções e da sua reflexão sobre si, sobre os outros e sobre o meio ambiente que o rodeia. É também a soma das expectativas positivas em relação ao futuro.” (Paschoal, 2001)

Como se vive o internamento em UCC


O internamento numa unidade de cuidados continuados não deve ser vivido como uma fase de solidão, tristeza e perca do sentido da vida. Tal objectivo encontra-se subjectivamente contemplado na missão e objectivos dos cuidados continuados e os profissionais têm consciência disso mesmo e esforçam-se para tal, embora ainda se note que os cuidados ainda se encontram muito voltados para os cuidados directos de saúde, não se dando o devido valor ao ambiente circundante, que deve ser fonte de estímulo social, familiar, afectivo, cognitivo e de desenvolvimento pessoal.


Como na unidade as actividades ocupacionais e de animação sociocultural em grupo apenas são realizadas uma vez por semana, devido a limitações no horário da terapeuta ocupacional, achamos benéfico desenvolver actividades semanais com os utentes, tendo como objectivo principal a estimulação sensorial, cognitiva e motora, bem como desenvolver momentos de convívio e novas experiências.


Esta foi a intervenção a curto prazo que realizamos com os utentes, visto todos possuírem necessidades específicas que podem ser minimizadas com esta intervenção. Conforme as limitações na actividade e restrições na participação de cada um, desenvolvemos actividades adaptadas a estas condições tendo também em conta factores ambientais (ambiente físico, social e de atitudes em que as pessoas desenvolvem a sua vida). Este último ponto foi indispensável para a adesão às actividades e o sentimento de satisfação que se pretendia alcançar.


A adequação de actividades a uma população com características tão heterogéneas é uma tarefa complexa quando não se conhece bem os utentes já que o significado do termo capacidade difere do desempenho real (as incapacidades podem ser colmatadas por estratégias, ajudas técnicas ou humanas específicas, ou por outro lado podem existir capacidade patentes para a realização de determinada actividade mas a pessoa não se sentir capaz ou não a querer realizar por não saber ou por qualquer outra questão). Desta forma, as primeiras actividades realizadas pretenderam basear-se em actividades com menor grau de exigência, sendo vistas como fonte de motivação para as seguintes intervenções.

A perspectiva da alta e a tarefa do cuidar



A maioria dos cuidadores aceitou o seu papel devido à inevitabilidade da situação, mas não deixa de associar os cuidados a valores de solidariedade e prestabilidade. A possibilidade do papel de cuidador despertar sentimentos de satisfação em quem o assume é referido por vários autores.


Estes sentimentos coexistem frequentemente com algum desalento e cansaço, que se agrava à medida que a idade dos próprios cuidadores aumenta, devido a dificuldades inerentes à conciliação da esfera profissional e dos cuidados (sendo que no caso das mulheres, esta conciliação comporta maior sacrifício do tempo pessoal) e a falta de tempo para descansar e conviver, entre outras.


Sobrecarga do cuidador (Braithwaite, 1992 et al.) poderá afectar quer o bem-estar do cuidador quer o seu desempenho enquanto prestador de apoio a outras pessoas debilitadas, afectando a sua saúde física e psicológica.


Assim, a partilha equilibrada entre o sector formal e informal nos cuidados relacionados com as actividades básicas da vida diária pode ser considerada como um aspecto positivo, na medida em que são precisamente esse tipo de tarefas que os cuidadores consideram mais árduas.


Muitos cuidadores manifestam incerteza em relação aos cenários futuros para continuar a prestar cuidados, porque receiam que a sua própria saúde não permita, porque, por eventual desejo de autonomia não estão disponíveis para o fazer, a menos que obtenham complementos que aliviem a sua tarefa. Apoios ou incentivos económicos, alargamento do horário de cobertura dos serviços que possam ser prestados pela comunidade ou soluções para apoiar o descanso do cuidador são fontes de alguma motivação para o cuidado.


Com efeito, o desejo de mais e melhor informação para cuidar e para o auto-cuidado, que alguns cuidadores expressaram, é uma das estratégias preventivas, tanto para o doente quanto para o cuidador, visto que muitos destes se encontram em situações relativamente vulneráveis no que se refere à sua saúde física e mental.


As relações de empatia entre técnicos e cuidadores são fulcrais na motivação para a aprendizagem de boas práticas (para cuidar e para se auto-cuidar).


Os contactos entre ambos devem ajudar a determinar o apoio a prestar ao idoso, ajudar a esclarecer não só o que o cuidador precisa, mas igualmente o que procura.



Institucionalização e UCC's



O recurso às instituições é uma questão central na vida de algumas famílias, o que conduz a uma certa dependência. Se por um lado, as famílias estão habituadas a resolver os seus problemas através das instituições, por outro, estas não lhes dão autonomia suficiente para que possam resolver os seus problemas e activar por conseguinte, as suas próprias competências e recursos.


Embora na unidade de cuidados continuados se promova de diversas formas o acompanhamento e cuidados por parte dos familiares dos utentes, é também verdade que a execução dos cuidados necessários leva a que os familiares não se envolvam por diversas razões:


Ø porque se desresponsabilizam;


Ø porque nem sempre se sentem confortáveis em realizar actividades com o familiar na presença dos vários profissionais;


Ø pelo próprio ambiente de internamento;


Ø pelo desconhecimento dos benefícios da sua interacção com o utente e instituição;


Ø pela falta de responsabilização dos familiares do utente pela própria unidade;


Ø porque embora façam o acompanhamento não sentem necessidade de activar as suas aptidões para o cuidar, visto que os cuidados já são prestados com eficiência.



Uma perspectiva dos serviços da RNCCI



Os serviços dos cuidados continuados ainda se encontram muito direccionados para os cuidados de saúde como perspectiva quase exclusiva de resposta às necessidades dos utentes, família e comunidade. Os cuidados directos de saúde são assim considerados o âmago do serviço, em parceria com alguns cuidados relativos à componente social, focalizando-se muito nos apoios existentes ao nível socio-económico e encaminhamento para os serviços mais adequados a cada caso, havendo por vezes um esforço aquém do esperado na inclusão da família no cuidado do utente. Verificam-se falhas ao nível da formação destes que já foram cuidadores dos utentes que beneficiam destes serviços e que poderão voltar a sê-lo. Mesmo não se encontrando prevista alta, devido muitas vezes à complexidade das patologias e perdas significativas sofridas, em tudo o familiar beneficia se lhe for dado especial atenção com o objectivo de lhe serem explicadas as intervenções a realizar, a evolução da doença do utente, repercussão das perdas de funcionalidade no seu dia-a-dia, numa tentativa de diminuir a angústia muitas vezes sofrida tanto pelos familiares como por outros cuidadores informais, que normalmente vivenciam sentimentos dicotómicos de alívio e de culpa, quer pelo peso e cansaço que os cuidados informais representavam, quer pelo sentimento de abandono ao familiar ou medo de que não usufrua dos melhores cuidados possíveis, já que ainda subsiste a ideia errónea de que este tipo de serviços não satisfaz os utentes no campo afectivo e emocional.


Para aqueles em que se encontra prevista a alta da unidade existem arestas a limar no que respeita à promoção de uma óptima integração dos utentes no âmbito familiar e social após a alta, bem como no seguimento continuado dos casos pós-internamento (que não é previsto), essencialmente os que por várias razões possuem necessidades e problemas de variada índole, os quais poderão pôr em causa os seus cuidados e efectivamente o seu bem-estar e qualidade de vida).


A verdade é que entre os vários profissionais presentes numa equipa de cuidados continuados integrados nem sempre é trabalhada em toda a sua amplitude, e tendo em conta todos os recursos humanos existentes, a desejada autonomização e toda a independência (ou, caso não seja possível, todo um cuidado integrado que promova a qualidade de vida do utente a todos os níveis e não só ao nível biológico como é o caso da pretensa melhoria da funcionalidade e diminuição da dor, que não é por si só um cuidado suficiente para produzir bem-estar. Deve-se considerar no cuidado outros níveis: social, familiar, espiritual, intelectual, afectivo e emocional). Para isso deve ser realizado um plano e acompanhamento individual do utente mais ajustado a esta realidade através de pequenas iniciativas e rotinas pensadas por cada serviço com o apoio de todos os profissionais de saúde e da área social.


Na unidade em questão e analisando toda a equipa podemos afirmar que os profissionais se encontram motivados e sensíveis quanto a estas necessidades. Existe um esforço para incluir os familiares/cuidadores no processo do cuidar. São programados ensinos (mas normalmente apenas na perspectiva de proximidade da alta), é promovida a interacção familiar-unidade sempre que é solicitada a sua comparência para a reunião sobre o plano de cuidados, para outras entrevistas importantes de forma a obter informação relevante para os cuidados, estimulo à interacção e ao acompanhamento que realizam ao utente (ex. da folha de compromisso), algumas iniciativas que promovem a interacção entre utentes, familiares e equipa técnica (festa de Natal), etc.


Todo este trabalho é importantíssimo para que se cumpram os objectivos dos cuidados continuados. Devem portanto continuar a realizar esforços e a cada vez mais programar e promover intervenções que respondam às necessidades anteriormente enumeradas, porque os interesses e necessidades dos doentes e das suas famílias deverão ser a principal preocupação de todos os profissionais.

quarta-feira, 22 de julho de 2009


Esta página dirige-se especialmente a Estudantes e Profissionais cujo serviço incide no âmbito da saúde e do social.


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